Sim, eu entendo. O dropshipping tem uma promessa tentadora: pode começar a vender online com um baixo investimento inicial, pois não tem de investir em stock, armazenamento, logística e transporte; e é fácil de começar, pois o seu principal foco é na promoção do produto e da sua marca, já que serve apenas como intermediário entre os fornecedores que escolher e os clientes que angariar com a sua estratégia de marketing.

Também ajuda a alimentar “o sonho” o facto de pesquisarmos por dropshipping no Google ou no YouTube e encontrarmos incontáveis vídeos que prometem que conseguimos começar um negócio de dropshipping com zero euros e começamos a faturar milhares de euros por dia num ápice. Seria o chamado “é fácil, é barato e dá milhões”.

Não irei defender o dropshipping como um negócio no qual valha a pena investir, nomeadamente porque irá vender um produto ao qual outros vendedores têm acesso e, como várias pessoas estarão a vender o mesmo produto, não há uma proposta de valor exclusiva. Não estará a trazer nada de novo ao mercado. É, no entanto, uma forma de se lançar do mundo das vendas online, de começar a testar produtos e de aprender sobre o seu público-alvo.

Também não vou negar que existem negócios de dropshipping de muito sucesso, que faturam milhões de euros (ou dólares) anualmente e que têm crescimentos impressionantes. Existem empreendedores que de facto enriqueceram bastante com negócios de dropshipping e que têm todo um negócio muito lucrativo montado nestes moldes. Mas, para nós, os pontos negativos de um negócio deste tipo superam em muito os possíveis pontos positivos.

Este tema veio hoje à baila porque nos últimos tempos temos recebido por email vários pedidos de esclarecimento de dúvidas sobre negócios de dropshipping, como por exemplo se existe um estatuto especial para o dropshipping na legislação (não existe); se é legal não cobrar IVA na venda dos produtos (não é); se é obrigatório passar fatura e como o fazer; quais são as obrigações fiscais; entre outras.

Estes pedidos têm-se intensificado nos últimos dias e nós, apesar de prestarmos todos os esclarecimentos que nos pedem dentro do nosso conhecimento, não somos fãs de negócios de dropshipping, pelo que os desaconselhamos, e passo de seguida a explicar porquê.

Não se controla o serviço que é prestado ao cliente

Quem já nos acompanha há algum tempo já deve ter lido em algum dos nossos conteúdos que consideramos o serviço ao cliente como o coração do ecommerce. Num mundo globalizado, onde fazemos “o mesmo esforço” para comprar numa loja online portuguesa, ou diretamente numa localizada na Ásia, qual é a oferta mais diferenciadora que pode dar aos seus clientes? O serviço que lhes presta.

No dropshipping, o foco recai na escolha dos produtos, no investimento em marketing e comunicação, e na estratégia de promoção do que está a vender. Até porque ao ser o intermediário entre o seu fornecedor e os seus clientes, não irá controlar o serviço que é prestado aos clientes pelo fornecedor, pois não será feito por si.

O consumidor digital é cada vez mais exigente: não espera menos do que um atendimento ao cliente rápido e multicanal, entregas rápidas e sem problemas, devoluções gratuitas e trocas em 72 horas. Sabia que vários fornecedores de negócios de dropshipping não aceitam devoluções? E mesmo que as aceitem, não serão controladas por si? Imagine a surpresa desagradável que terão os seus clientes quando descobrirem.

Não se controla o produto e a qualidade do mesmo

Para nós, o produto é um dos 8 pontos-chave na criação de um projeto de ecommerce. Criar um produto, testá-lo no mercado, receber críticas de clientes e seguidores, aperfeiçoá-lo, ir lançando versões melhoradas ao longo do tempo será, sem dúvida alguma, uma tarefa árdua, demorada e dispendiosa, mas extremamente gratificante.

Defendemos que tenha um produto de qualidade que o seu público-alvo adore. Sem um produto com qualidade, que as pessoas queiram de facto comprar, no mundo competitivo e global em que vivemos, todo o resto fica extremamente difícil.

No ano passado, numa conferência internacional dedicada a ecommerce em Barcelona, todos os oradores, sem exceção, pediram aos participantes que “parassem de impingir produtos que não se vendem naturalmente”. Por isso, comece sempre por garantir a qualidade do seu produto! E com um negócio de dropshipping não o poderá fazer.

“O dropshipping é uma ótima maneira de aprender a fazer anúncios no Facebook, pois requer pouco investimento e pode ser feito por uma só pessoa. No entanto, quase toda a gente percebe depois de começar que a quantidade de serviço ao cliente necessária é imensa e que é muito difícil obter uma segunda ou terceira venda dos clientes, porque eles tiveram que esperar muito tempo pelos seus produtos. Eu, pessoalmente, conheço mais de 30 pessoas que começaram com dropshipping e depois passaram a criar os seus próprios produtos, pois é mais escalável e gratificante a longo prazo.”

Chris Erthel, Co-Founder da Meller & Leading-edge Facebook Marketing

Não se controla o stock

Um dos temas mais sensíveis para o cliente na compra online é a gestão de stocks. Permitir ao cliente fazer uma encomenda e pagar os produtos para depois não ser possível entregar porque o seu fornecedor não tinha em stock provoca desconfiança no consumidor e pode levar a que deixe de comprar na sua loja online.

E se no seu negócio de dropshipping, não controla o produto, nem a logística, os envios, ou o packaging, não controla o serviço ao cliente, perder a credibilidade por vender sem ter stock disponível para entrega… o que lhe resta?

A margem de lucro é muito baixa

Defendemos que aplique a regra das 3x para definir o preço do seu produto. Escolha um produto que lhe permita aplicar um multiplicador de três (ou até de quatro), ou seja, três ou quatro vezes o seu custo de produção (excluindo IVA). É extremamente importante que tenha a margem certa para garantir o investimento na produção de conteúdos, publicidade online, equipa, despesas fixas e que garanta o retorno do investimento.

Um produto sem margem ou com uma margem muito reduzida apenas deverá ser considerado quando o volume de vendas esperado é muito elevado ou o preço do produto é muito alto.

É também por este motivo que um negócio de dropshipping é difícil de escalar ao longo do tempo, pois as margens são as mais baixas quando comparadas com outros modelos de negócio. Podem existir muitas pessoas a “vender bugigangas” e a afirmar que ganham muito dinheiro, mas é difícil ganhar muito dinheiro quando não há muito lucro.

Os produtos (normalmente) não são diferenciadores e não têm marcas apelativas

Sejamos frontais: uma grande parte dos negócios de dropshipping têm como fornecedores websites como o AliExpress, o Wish, ou outros semelhantes. E existe um motivo para os produtos vendidos nestes website serem baratos: não têm grande qualidade, nem aspetos diferenciadores, nem marcas apelativas.

Estes websites também oferecem preços tão baixos porque os envios demoram três ou quatro semanas (ou mais), ou seja, não há envios express, nem same-day, nem nada que se pareça, o envio é o mais lento possível para terem custos muito baixos de transporte.

Outro aspeto muito importante na experiência de compra é a embalagem. Elementos como a qualidade da caixa, branding, acondicionamento dos produtos e instruções de devolução são dos aspetos mais importantes. Um cartão no interior da encomenda, com um agradecimento pela compra, assinado à mão por alguém da empresa, faz maravilhas pela satisfação e fidelização dos clientes. Tudo aspetos fora do controlo de um negócio de dropshipping.

Muitas reclamações relacionadas com o estado das encomendas

Sendo que num negócio de dropshipping os envios não são feitos por si, pode acontecer que o cliente receba um produto errado/trocado, ou a quantidade errada, ou que a encomenda venha danificada, ou ainda que a encomenda não vá ter à morada correta.

Já imaginou a quantidade de reclamações que isto irá gerar, oriundas em processos que não foram controlados por si? O seu email e redes sociais irão ser inundados por clientes que querem saber o estado da sua encomenda, perceber porque é que ainda não a receberam, ou o que têm de fazer para devolver os produtos e reaver o que pagaram para os comprar.

O que é que os proprietários da lojas online com modelo dropshipping podem controlar para se diferenciarem das demais? A resposta: bom atendimento ao cliente. É uma das poucas coisas que irá controlar em todo este processo e na qual deve ser excelente.

“O dropshipping é geralmente considerado uma maneira rápida e fácil de começar nas vendas online, e oferece muitos benefícios – não ter que pagar antecipadamente pelo stock, nem ter que lidar com os envios são dois grandes benefícios! Mas, como estratégia de longo prazo, pode tornar-se num impedimento real ao crescimento. As empresas de retalho com mais sucesso são aquelas que criam um forte relacionamento com o cliente. Esse relacionamento é baseado numa ótima história, ótima comunicação e ótimo atendimento ao cliente. Quando baseia o seu negócio no dropshipping, cede o controlo do serviço ao cliente, colocando outra pessoa no controlo da parte crucial do processo – levar o produto até ao cliente.

No entanto, nas circunstâncias certas, pode funcionar muito bem. Algumas empresas que fornecem serviços de dropshipping fazem um trabalho incrível, cuidam bem dos seus clientes e fornecem os dados necessários para se comunicar de maneira eficaz com eles, para que obtenha todos os benefícios do dropshipping E também forneça um ótimo serviço ao cliente.

Para empresas que já operam sem dropshipping, o dropshipping pode oferecer uma maneira económica e de baixo risco de expandir a sua gama de produtos.”

Chloë Thomas, eCommerce Marketing Problem Solver & Founder

Problemas com as devoluções e os reembolsos

Sei pelos nossos clientes que a palavra “devolução” é das mais temidas em ecommerce. Num negócio de dropshipping será ainda mais temida, pela complexidade da logística inversa.

Por esse motivo, a sua loja online deve ter as Condições Gerais de Venda, a Resolução Alternativa de Litígios, a Política de Privacidade e o Livro de Reclamações Online disponíveis a todos os consumidores, onde explica claramente qual é a política de trocas, devoluções e reembolsos da sua loja online, incluindo se as devoluções são gratuitas, se faz trocas de produtos, e em que países.

Não se esqueça que existem muitos conteúdos online sobre dropshipping focados nos Estados Unidos, e também no Brasil, que podem induzir em erro quanto à facilidade de vender “para todo o mundo” com dropshipping. Nós estamos em Portugal e pertencemos à União Europeia, o que significa que temos de obedecer à legislação nacional que regula as vendas à distância, e que não é de todo semelhante à legislação americana.

Pode ler mais sobre legislação para ecommerce e também fazer download da nossa checklist de informações obrigatórias a incluir em lojas online aqui.

Não é uma estratégia de longo prazo

Nos EUA o número de negócios de dropshipping caiu 51% nos últimos dois anos (fonte: eCommerce Trends Report).

O mesmo estudo especula (e eu concordo) que esta queda se deva por um lado às dificuldades crescentes do modelo de negócio de dropshipping, e por outro às grandes recompensas de ter um produto e uma marca únicos ​​e diferenciadores no mercado atual dominado pela Amazon.

Embora o dropshipping seja uma forma fácil de começar a vender online, não é um modelo de negócios sustentável. Se quiser escalar, precisará de começar a desenvolver os seus próprios produtos e colocar toda a sua energia a construir uma marca e a expandir o seu catálogo de produtos. O lançamento de novos produtos é uma das melhores maneiras ​​de expandir o seu negócio online.

“Existem vários aspetos que precisam de ser cuidadosamente considerados ao avaliar as principais vantagens entre os modelos de negócios dropshipping e ecommerce. Os aspetos mais cruciais são opções para personalização do produto, margem, tempo de entrega, exclusividade do produto, barreiras à entrada dos concorrentes, gestão de stock / armazém, bem como as diferentes exposições financeiras relacionadas com os custos e ao risco envolvido na criação do negócio, particularmente no começo. Neste debate, as pessoas tendem a escolher um lado ou o outro, sem se concentrarem nos aspetos complementares que esses modelos poderiam alcançar ao serem combinados. De facto, existem muitas empresas de sucesso que combinam eficazmente elementos de ecommerce e de dropshipping para melhor responder às necessidades do mercado.

Há alguns anos, tive a oportunidade de me tornar consultor e investidor da Hinelson.com, que é um ótimo exemplo de negócio híbrido de sucesso, combinando elementos de ambos os lados para maximizar a flexibilidade organizacional e enfrentar o potencial inexplorado de mercado na velocidade certa, o que levou a uma taxa de crescimento sustentável nos últimos dois anos.”

Andrea Sericola, Head of Paid Social da TRGT Digital

Não se cria uma relação com os clientes

Este ponto que deixei para o final, será no entanto um dos mais importantes. Acredito que um bom negócio online, sustentável e rentável, beneficie ao partilhar a história por trás de quem criou a marca e o porquê. Que tenha um propósito, que queira melhorar algum aspeto da vida dos seus clientes. Que comece porque um dia o fundador da marca encontrou o seu “porquê”.

Sem uma história, sem um porquê, a sua loja online será apenas mais uma loja anónima na Internet, que vende um ou mais produtos anónimos. E as marcas sem nome, sem rosto, sem história estarão cada vez mais apenas na Amazon.

No TSE trabalhamos com marcas que têm uma visão a longo prazo, e que passa muito pela fidelização dos clientes.

E esta nota final é muito pessoal mesmo, enquanto consumidora e também profissional de ecommerce irei valorizar e defender cada vez mais o consumo ou de marcas nacionais, ou de marcas internacionais que partilhem das minhas preocupações com sustentabilidade, qualidade das matérias-primas, bem-estar dos colaboradores da empresa e satisfação do cliente.

Livro “110 Erros que Prejudicam a sua Loja Online”

Acabamos de lançar o livro “11o Erros que Prejudicam a sua Loja Online” e no qual irá encontrar muitas das razões pelas quais não recomendamos negócios online em modelo dropshipping. Enumero alguns exemplos rápidos de erros relacionados com este tema, e que aprofundamos no livro:

  • Preços de produtos mal definidos;
  • Não cumprir com os requisitos legais da compra online;
  • Não ter os stocks em tempo real na sua loja online;
  • Oferta estática e sem desenvolvimento de novos produtos;
  • Página “Sobre nós” sem conteúdos;
  • Descurar a marca e dedicar-se apenas à venda de produtos;
  • Falta de proposta de valor;
  • Reduzir os custos de transporte em vez de aumentar os níveis de serviço;
  • Considerar que a embalagem apenas serve para transportar os produtos, etc.

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Sónia Costa
Sónia Costa

Social Media & Digital Marketing Consultant